sexta-feira, junho 04, 2004

Beleza da Natureza

Em consideração pela tua pele
Brancas são as noites que não passam a pensar em ti

E o negro forte do céu é o dos teus cabelos
Que o desejo faz deslizar entre os meus dedos

A Razão Complicada Dos Simples

Não me custa a morte.
Custa-me deixar de viver.

Nacionalidade ao Cérebro

Li Portugal como se o tivesse escrito
Com muito amor e igual sentido crítico
Hoje, desanimado, insultado, desarmado de ser
Sou estrangeiro que já não quer saber

O Saber dos Sentidos

Amor, meu professor,
A tua luz é o sol que irradia o nosso conhecimento!

Alegria Fugidia

Um sorriso resplandecente surge do meio da bruma
O escuro fica mais escuro e assim mais belo
Por muito provável que a alegria venha e rapidamente suma
Aproveito o sol que a lua reflecte no nosso castelo

Sinais de Deus

O tempo trai-me. O meu inconsciente é seu aliado.
Rejeito todos os sinais. Rejeito ser renovadamente
Rejeito ser parte ou a soma das mesmas de qualquer fado
Só afirmo a rejeição, do corpo e da mente

Livro...

Livro publicado é hérnia de dor querida que se corta para dar ao mundo

Interior, Que Não Te Vejo

Eu, múltiplo, que o tempo diversifica e transforma,
Abro-te o meu interior para que possas nele ver o exterior
E te apercebas dessa primeira impossibilidade

quarta-feira, maio 05, 2004

A Escrita

Esta transforma os meus pensamentos
É ela a culpada de todos os meus males
Expõe pessoalmente os seus argumentos
Mas não chega a dizer nada destes momentos

Que fazem de mim um instrumento seu,
Tal como o amor me o faz costantemente
Fim ao sentimento e pensamento meu
Fim à vida. Fim ao céu.

Morto-vivo cedo à masturbação mental,
Ao processo descontextualizante
Que pouco tem de pessoal
E só me traz recompensa agonizante

terça-feira, abril 27, 2004

Sol Nascente, O Prisioneiro

Penetrado por uma
Criatividade que não pensa,
Choro estas palavras
Rio estes versos

quinta-feira, abril 08, 2004

Noite De Mar

Durante as noites em que as ondas batem mais compassadas, ao ritmo do sono que não chega, este som a natureza torna-se a minha única companhia.

Já este mar de encantos, nunca se queixa de não dormir. Isto julgo eu...

Pois é bem possível que este som seja apenas o seu constante lamento por não poder dormir. Não poder repousar.

Pudesse eu perceber a linguagem do mar e nada mais faria, amigo meu - que tiraste uns minutos do teu tempo para me ler, que contar-te tudo, de tudo o que ele me diz. Suas divagações, seus caprichos, suas dores, seus sentimentos...

Porque mar que fala sente concerteza, senão para que quereria ele falar?!

De dia o mar não canta do mesmo modo. É certo que de dia também o não ouvimos do mesmo modo, mas a noite tem sobre todas as coisas um efeito diferente, que se sente, não se explica. E quando se tenta explicar, mais parece que se afasta mais e mais o que se sente.

Cada palavra que tenta puxar só consegue empurrar mais e mais o sentimento. E mais é pouco para quem, como eu, já sentiu semelhante coisa.

Passa-se que a noite deste mundo foi coisa que o próprio mundo nos presenteou para descanso das nossas almas. E se o mar tem alma, que eu acredito que tem, sofre concerteza.

O descanso do corpo consegue-se a qualquer altura, mas esse não é o verdadeiro descanso. Se a alma não descansa o corpo, seu servo, dobra-se, contorce-se, amua... Azia natural de corpo com alma que não teve a paz que o corpo lhe merece.

Será concerteza sádico da minha parte conseguir tanto sossego com o suave som da tua agonia? Oh mar, que não dormes, acredita que este sadismo não é voluntário! É sim de alguém que te pensou e que se resignou perante a grandiosidade desse movimento que me torna tão inútil e incapaz de aliviar a dor do teu lamento.

Diria que podia ouvir essa melodia (ou agonia, que me custa tanto pensar que o é) durante toda a noite.

Mas, mais tarde ou mais cedo, sei que este prazer me vai levar ao sono. E então perceberei que o prazer não vinha desse som de surdina e falador, mas antes do facto desse som me levar cada vez mais perto do sono.

Do reencontro da minha alma com o sonho suave que só a noite embalada pelas ondas trás.

quarta-feira, março 31, 2004

Antecipação, Repleta De Emptidão

Correm-me pensamentos pelas veias,
Pensado é o meu corpo todo.
Os outros textos, as minhas teias
E eu imóvel na mobilidade de tudo.

Não sinto as palavras que escrevo.
Formato digital. O presente natural
Escorrega pelo inconsciente determinado,
Munido de intencionalidade parcial

O automático não se pertence a si,
Não tem ser donde partir.
E eu só pertenço ao automático
Menos ser que eu,

menos EU, menos EU

sábado, março 27, 2004

Musa Lusa

Vermelhaste a face de todos em redor
Bela, insinuada, descarada, sem pudor
Uns riam, outros sorriam, todos te viam
Musa lusa, brilho incandescente. Isso, riam…

domingo, março 21, 2004

Ditos Populares – Sujeitos Impopulares

Já lá dizia a velha das Viagens de A., que quando não se trabalha, trabalha alguma coisa em nós que nos cansa ainda mais.

Aqui digo eu, que quando o espírito não nos toca falece qualquer coisa em nós, a que comummente chamamos vontade.

Daí a nossa vida de cansaço. De permanente irritação. Que a ociosidade não compreende. Pois isto nada lhe diz.

terça-feira, março 16, 2004

Vida Na Bruma Será Vida?

'O ser de ter
é o querer ser
e não querer'




- NÃAAAAAAAAAAAAAAAAAOOOOOOOOOO!!!!!!

- NÃAÃÃÃÃÃÃAOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!

Gritava! Brandava! Corriam-lhe as últimas lágrimas duma vida seca. Abriam-se fendas que nada mais poderia fechar. Nada?Ninguém!

- Só quero o meu filho! O MEU FIIIIIIILHO!!!

E em segundos, num espaço sem tempo, a matéria diluiu-se em vazio. Em nada. E a esperança tornou-se o gigante que tudo poderia concretizar. Se quizesse?

- Eu abro mão de tudo meu Deus. Dá-me o meu filho? Salva-o? Eu dou tudo o que tenho. Eu ajudarei os outros. Mas O MEU FIIIILHO!!! DEUUUUUSSSS!!!

Em volta, as pessoas olhavam um homem estranho. Louco decerto. Possivelmente até, um homicida, não fosse ele ser estrangeiro na sua aparência. E nos tempos que correm, seria, muito naturalmente um terrorista. Aqueles polícias ali à volta, lá estariam por algum motivo! E aqueles gritos de horror... Arrependimento de certezinha absoluta!

Ah, mentes pequenas. Xenofobia atroz.

Entretanto as sirenes chegavam, o mundo todo buzinava. Em momentos, toda aquela rua era vermelha e azul. Todo o movimento se dava ao passo de compassos agudos. Sirenes, essas sim do horror? E contudo, a réstia, a esperança de salvação.

No chão o vermelho - fogo, tiro, queda - escurecia. Em seu lugar aparecia o negro.

A loucura espreitava o seu momento para aparecer em palco. Que excitação! O seu instinto dava-lhe certezas que nenhuma probabilidade àquele pai podia oferecer.

O vazio completo passou por aqueles momentos de espera. A batina branca? ou verde?!... que o diga a loucura, ela saberá seguramente!, trouxe a notícia esperada.


(?)


Na paz dos últimos dias, o suicídio chegou. Não como necessidade! Antes, como... naturalidade.

sexta-feira, março 05, 2004

Incontornável Lei da Não Presença

Que fique. Não...

Não fique!

Não sei...

Olha para mim...

Molha aqui a tua mão.

Vês...

É este o efeito da solidão

quarta-feira, fevereiro 18, 2004

Futuro Sempre Insuficiente

Dia nenhum é suficientemente grande para eu fazer aquilo que não me apetece fazer

segunda-feira, fevereiro 09, 2004

Sinónimos Quase Perfeitos

Junta-se uma letra,
Ainda que não letrada,
Numa outra, também ela só falada,
E cria-se a família Palavra

Os sons tornam-se vozes
Ganham corpo. Amalgama
Das suas várias partes
Especialmente cuidadas como poema

E então começa-se a escrever
Ou simplesmente a falar,
Para expressar sentimentos. Para comunicar…
Para que o que nunca será, venha a ser.

quarta-feira, janeiro 21, 2004

Para Quê?

Para quê tentar sentido,
Quando ele próprio anda perdido
Nas teias que ele próprio traça
Na procura de si mesmo?

Para quê fomentar o desejo,
Quando ele próprio nada quer,
Senão levar a pensar que o que vejo
É que causa a felicidade do ser?

Deixar-me estar aqui achado,
Permanecentemente no meio de tudo
E ao escrever, recusar ser mudo
Ao indecifrável movimento do mundo.

quinta-feira, janeiro 15, 2004

Verdade, Verdadinha! Ou eu não me chame...

X – Então, vamos lá descobrir a verdade?!
Y – Embora!
X – Mas só a absoluta!
Y – Claro! Senão não é a verdade!
X – Fotografaste-o?
Y – Sim, foi simples!
X – Olha lá para isto comigo, então.
Y – Está bem.
X – Então, mas isto não é a verdade!
Y – Não?!
X – Pois claro que não! Aqui não está o que veio antes, nem o que vem depois. E, para mais, só mostra uma das faces daquilo; e de uma só perspectiva, diga-se. Já para não ir mais longe e dizer que no processo da foto, ela primeiro estava ao contrário e só depois é que foi para o direito!
Y – Mas olha, o Z também gravou isto em VHS, queres ver?
X – Yeah, isso de certeza que resolve a questão!
Y – Vês, aqui está! O antes e o depois! Bem focado e tudo! E filmou-o todo à volta.
X – O quê?! Achas? Aqui só vejo um bocadinho do antes e do depois! E quando ele anda à volta deixa-se de ver o que está do outro lado!
Y – Ishhhh, pois é! Olha, vamos falar com o N. Dizem que os artistas são os melhores na procura da plenitude. E ele é um artista, oh diz lá a verdade?!
X – Eh… Oh, referes-te ao quadro do N. Eu também gosto do N mas temos que dizer a verdade, o objecto aqui é a cara dele!
Y – Eu não acho!
X – Pois também ele não devia ter achado, porque isso de achar é que o fez fazer isto! Alcançar a verdade equivale a olhar para ela sem filtros no meio, percebes? E já viste as cores? O que é que é aquilo?
Y – Devia ser de noite!
X – Oh, mas de noite ou de dia aquilo não é o mesmo?
Y – Pois… Devia ser… Mas olha lá, o que é que é aquilo para ti afinal?
X – Então… É aquilo não estás a ver?
Y – Estou mas...
X – Ah, já estou a ver. Olha aquilo é a,q,u,i,l,o. Está melhor?
Y – Ah, sim já estou a perceber! Então, mas se eu só ainda tivesse 6 meses e não conseguisse falar, aquilo não era o mesmo?
X – Era, era. Tu é que não!
Y – Hum. Eu nem devia dizer isto, mas… Sabes, no outro dia levei-o para casa e andei às voltas com ele. Abstraí-me de mim mesmo e mexi-lhe. Mexi-lhe mesmo! Olhei-o, cheirei o seu perfume, senti-lhe o gosto. Ouvi-o, percebes! Acho que consegui sê-lo!
X – É isso! Isso é que é a verdade! Já sabias afinal! Então diz lá como é que foi?
Y - Eh pá, não me lembro bem. E o que sei não consigo explicar…
X – Oh… Deixa para lá. Mesmo que te lembrasses, já foi no outro dia. E sabes bem que a memória não é. Parece! É como a fotografia de um quadro que caiu na lama e que, embora às vezes se suje mais que noutras, todos os dias está um bocadinho mais estragada. É a outra luz de nós. Pena só brilhar com força às vezes!
Y – Que chatice! Isto afinal não é assim tão fácil.
X – E temos sorte que aquilo está quieto, senão já estás a ver!
Y – Pois estou, estou! E já viste se aquilo pensasse?
X- Ah, ah, ah. O mais certo era estar agora a olhar aqui para nós, para saber, na verdade, o que estamos para aqui a fazer.
Y – Olha, verdadeiramente, mesmo que quisesse também não te sabia dizer.
X – Deixa lá isso. Vamos a mais um copo?
Y – Mais ainda? Heia!
X – Vá, desta vez pago eu.
Y – Vá. Vamos lá ter com N e com o Z, então.