segunda-feira, setembro 29, 2008

Il Pleut

Lá fora chove,

Cá dentro eu amo. Sei que amo,
Mais do que a imaginação do meu saber

As lágrimas rasgam e queimam
A pele, alimentam o querer.

E o "eu" só pensa na negação,
Nega a razão do seu sentir.

Nega o evidente, com o coração no lixo.
O coração que fui buscar

Enquanto chovia lá fora.

quinta-feira, junho 05, 2008

Estristeza Sentida

Foges de mim?
Mas para onde vais beleza,
Que deixas estristeza
Tão só, assim...

sexta-feira, dezembro 07, 2007

A Seca do Suor

É grave e constante o cinzento
De cimento e ferro que alicerça
Os nossos dias

Momentos para os outros
No fundo para nós, dizemos...
E cada vez mais longe, cada vez mais sós
Cada vez mais menos

Lá fora, o mundo espreita impávido
Expressão triste, de incredibilidade e gozo,
Seres imasculados, sem fronte nem lado.

Grávido com a dor do mundo
Vazio de potencial
Empurro mais um dia, menos um mal

E tudo tão verdade,
tão desilusão
tão repetição

Nada ideal.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Mão

Uma mão é a cabeça do corpo todo
Sentimento, razão e poesia
Chuva de Primavera, Outono de fogo
Mão que se escreve, mundo que se cria

É valor potencial
Que sustém toda uma vida
Calejada e por vezes ferida
Mas sempre mão, sempre igual

Agarras os meus medos
Serves de encosto ao meu descanso
Defendes-me desses enredos
Que em tantas vezes me lanço

Sempre comigo, sempre prestável
Dás-me paz, apontas-me o prazer
Ajudas o mundo a acontecer.
E o coração bate mais estável

quinta-feira, setembro 06, 2007

Rasgar o Mar Para Navegar

Os dias demoram-se repetidamente sem sabor
A infrutuosidade dos dias…

Sonhos adormecidos, não me estremecem
Promessas adiadas,
Acumuladas numa caixa cada vez mais funda,
Juntamente com desejos e intenções vãs

Desespero, cansado, que as palavras humedeçam
As nuvens desvaneçam
Se revele o sol desse sonho adormecido

E sinto vontade de navegar nessas tuas lágrimas curvas
Escondidas por esse sonho
Onde ainda hei-de ser caravela

Mas... Temo a pergunta: ‘Porque me amas?’

Nenhum alimento, nenhum instrumento
Nenhum argumento…
Lembrei de trazer para te responder

Por Seres Tu e Assim Eu Ser Mais Eu Nos Nossos Nós
Desde Quando Os Teus Olhos Rasgam e Abrem os Nossos Dias
Até Anoitecerem a Nossa Ânsia de Sonhar Juntos?

Certo será, quando acordarmos deste sonho,
ainda havemos de sonhar!

Ao teu lado tudo é possível

sexta-feira, julho 27, 2007

DesAgosto Que Me Mostras

Desejo para mim, como nunca antes desejara
Confundir-me com as imagens do prosaico,
Diluir-me na transparência,
Prática, morta dos objectos sem uso

Evito sequer ser pó, que atraia qualquer olhar
Qualquer desejo de mudança.
Atrai-me o escuro da sombra,
O canto esquecido do sol, a transparência do natural

Os múltiplos sons do silêncio
O latejar do pensamento...
Que magoa e fere no estender dos dias
Sem fim,

Sem diferença. Resto ser igual...
Nem assim encontrar suficiente semelhança
Que me permita ser esquecido
Como sou pelo ideal

sexta-feira, julho 13, 2007

Hipnose da Descoberta

Alongou-se, na despedida, numa conversa quente
Apanhado de surpresa quando os seus olhos lhe gritaram: Acha-me!

Descansando-os fascinadamente sobre si
Demorou o seu olhar
Tanto quanto os limite do aceitável permitiram

Por dentro, um turbilhão - misto de ansiedade e agitação -
Faziam gaguejar e tiravam o sentido a palavras
Antes macias, deslizantes, arrebatadoras…

Sentia em si a infância
A frescura num olhar
Já tão cansado e cheio de tudo

Em redor vislumbravam-se, cada vez mais ténues,
Ecos e sombras.
Contra-luz, contra-voz…

Contra o desejável,
Hipnotizante,
Epicentro de um novo mundo

quinta-feira, maio 03, 2007

Distracção Anosa, Discuido Danoso

Numa pequena distracção

O Outono cinzento adulto em sociedade
Levou-me a felicidade

Sinto esvair-se-me a naturalidade
Corre mais rápida do que eu
A horizontal espontaneidade

O génio simples, o despropositado
Tão bons e tão maus nos seus momentos
Os sentimentos violentos,
O rude sem querer...

Rasgado, fissura na ruptura,
Vazio por preencher
Alguém novo para conhecer
Um desejar,
Um querer... Um dizer...
Um novo Ser

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Memórias de papel

Rasgado o mundo em dois
Quebrado, suplantado, dorido
Margens inteiras se dobram para me apanhar

Choro o céu daquele lugar,
De onde apenas se desliza para o vazio
Descabelo-me contra a minha própria fraqueza
Das gerações que não choro... Que não rio...

O verde, a maresia, o teu toque de veludo
Memórias vãs de um ser no abismo
Intensidade, querer, heroísmo
Desejo incapaz, mas querido, do ser sisudo

Ah... Não quero mais que isso!
Um reflexo na superfície desse oceano
Uma esperança de início, para o vício,
Um olhar, um som, uma corrente que me vá levando

Para aquele lugar do qual nunca saí
Ao qual nunca irei voltar

Frio Dolor

Existe um frio lá fora
Que me gela a alma.
Um frio subtil, um frio de calma
Veneração Outonal que o Inverno namora

Queria eu também um frio assim...
Não aquele que tenho, que dá cabo de mim.
Limpo e honesto, sonoro
Gélido no seu sentir com que acordo

Queria-o antes adormecedor
Já despercebido na sua constante latência,
Não acompanhado desta pequena demência
De chamar frio ao amor

sábado, outubro 28, 2006

10 minutos do Tempo

Decisões são consequências certas
O feito que não pode ser desfeito
A correcção só atenua o infortúnio

O tempo que não assenta
O presente que nunca o é

A responsabilidade
O nada que é sempre algo

O peso constante de um corpo hirto
Grave… À qual não se pode fugir

O meio, o indivíduo, o contexto
A inter-sujeição, os outros, o colectivo
Restrições morais, legais, logísticas...

A dor da dúvida que nunca se extingue por inteiro
A probabilidade que nunca chega a SER
A nossa pequenhez perante o todo
A origem. O destino. O mistério

Os instintos naturais imunes de restrições sociais
O preço impagável de sonhar
A frustração individual daquele que isso não pode pagar

O imprevisível, o imediato, o clareado distanciamento
Os sucessivos filtros,
O bom senso, desdenhado pelo inferior ser superior

O imperceptível interior que ao mostrar-se já não o é
Via-se a surpresa a fugir, escondiam-se outras… Sacanas!

A parcialidade como lei
O visível, face a um ser maior
Permanentemente incompleto

A subjectividade
A ingénua objectividade
A magia interior, a única que existe

A ilusão de ver,
O desconforto de ser visto.

O intertexto, o inconsciente
A ambiguidade, o enigma, a pluri-significação, a opinião
A mentira. O real?

O Deus e os Eu’s

O tédio
As massas, a propaganda, publicidade,
Os ícones. Lavagens cerebrais

A passividade, o desprezo
A activa hipocrisia do jogo da actividade

Os radicalismos,
O meu. O nosso…
Capacidade e esforço vs. Igualdade desmedida

O futuro sempre muito distante
O presente sempre muito passado.
A história, plena de dicas e preconceitos

O amor
A confusão
O tudo junto
O EU e tudoresto
Sempre tão resto
Nunca tudo por muito tempo

O incompleto
O contexto
A ténue, frágil, inglória realização

A insuficiente sobrevivência
Os prazeres imortais

A felicidade sobra para ti
Oco, frio, calculista, inconsciente do fundamental,
Desinformado, arrogante, abastado, egoísta,
Presunçoso mas combativo, ambicioso, superficial,
Não nobre indivíduo desalmado
Que se chama a si próprio de SER

E que na sua convicção tem muitos mais dias bons do que maus

sexta-feira, outubro 06, 2006

Querer o Mundo, Desejar Fugir Dele

Tenho tudo o que quero
E nada do que preciso
Numa luta que existe
Mas não se sente
Entre o meu mundo e a minha natureza
Queria querer antes o que preciso
Se ao menos soubesse eu o que é
Ou não estaria a ter esta discussão
Mas uma outra qualquer

sexta-feira, setembro 29, 2006

Sonho Dormir

Vejo no céu
As cores do teu olhar
Vejo nas nuvens os teus passos
E nas aves que passam a tua suavidade
Vejo no verde que me rodeia
A esperança de te ver de novo
E dessa esperança a vontade de acordar começa a aparecer
Vejo no horizonte
As linhas infinitas do teu rosto
E na suavidade da manhã
A frescura do teu cheiro,
O sabor único desses teus riachos
O chilrear dos pássaros, os sons da natureza,
A doçura das tuas palavras
E à medida que tudo isso se aproxima
A tacanha realidade leva-te para longe...
Pode ser que amanhã sonhe de novo.

Não seria melhor passar todo o tempo a dormir?
Custa esta vida de acordado… Custa a vida!

terça-feira, junho 06, 2006

segunda-feira, junho 05, 2006

O Legítimo Zé Ninguém - "The Man of the Crowd"

Entre os véus negros que rolam na praça
Vão os simples, os reles e os outros
Os outros, tão outros que se excluem da exclusão
Perdidos que vão na sua propria sofreguidão.

Seres vivos do desintendido
Mundo. Mudo, imundo
Cumplice fedido desse alarido.
Tumor interno escondido, esquecido
Buraco negro, grito implodido no fundo

Esquecidos lá vão...

quinta-feira, junho 01, 2006

The Post-Conscience of the Hero

Are you prepared to pay the price of indifference?

Of a life without feelings or emotions?

Of the state of mummification that has taken away all your certainties, your safety illusions, your everlasting childhood…

Are you prepared to be the piece in the machine that wasn’t done by the old man’s heart but by routine alone?

Are you prepared to be that routine now and, despite that, reciprocate the old man’s desires and hopes?

Are you prepared to live in this thing where there’s nothing left of virtue but panic, regrets, paranoia, sadness, guilt, shame and trauma?

Were you ever prepared at all?

Are you ever going to be?

sexta-feira, maio 19, 2006

Homem Novo

O Homem descobriu no verbo a inexistência de um deus
E no mesmo verbo achou a impossibilidade de imortalidade total
Então acordou para o mundo e achou em si mesmo o seu Deus
O todo poderoso ser que pode determinar uma pequena, mas decisiva, percentagem
De toda a aleatoriamente que prova ser este mundo,
Embora que engolido em rotinas que lhe estabeleçam uma pretensa ordem,
Indispensável, não à sobrevivência biológica, mas – e talvez mais importante – à mental
E agora, com esse homem-deus por aí, esse super-homem, que venera as suas mães e anseia matar todos os seus pais
Os seres bons que lhe deram noção da realidade, das limitações exteriores, da lei,
Mas também a capacidade individual e do peso individual no todo
Está aqui. E por cá vai ficar e ser e fazer até que algo mais venha e que as poucas incertezas que tem tenham valido a pena enquanto o ar foi ar
E que só depois venham as verdades,
Que só o tempo ditará,
E que só a ideal idade lhe dará

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Tributo À Saudade


(Foto de André Matos)

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Beata Heresia

Tenho a fé do passado
Na inexistência da fé presente
No presente
Para o presente...
A fé, sempre ausente, das almas que,
Como eu, vagam insatisfeitas
Ainda que na segurança da verdade,
Tão absoluta quanto ilusória, da modernidade

sexta-feira, setembro 09, 2005

Roda António

Roda que mordes essa outra no cú
Num movimento tecnofágico
Persistente e repetido

Fazes soltar um gemido
No operário, antes mágico,
Quase já tão maquinal quanto tu.

E a magia se derrama, espalha e perde
Em mil pedaços que ele não consegue reunir
E só resta em ti essa sede
De infância. De embrião. De dormir.